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sexta-feira, dezembro 09, 2011

A vida vale a pena?


E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu a vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande em tua vida há de retornar, e tudo na mesma ordem e seqüência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio.
A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!" -

Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasse assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que responderias: "Tu és um deus, e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse; a pergunta, diante de tudo e de cada coisa:


"Quero isto ainda uma vez e ainda inúmeras vezes?"


Pesaria como o mais pesado dos pesos sobre teu agir! Ou então, como terias de ficar de bem contigo mesmo e com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela? 
Nietzsche


Eu?
Eu viveria tudo de novo. Os dias poderiam ser iguais, mas as minhas emoções não. 
Eu perdoaria uma parte dos meus erros, por entender só agora que foi falta de compreensão ou de sensibilidade, por pura imaturidade de minha, ou do outro, que também seria perdoado, afinal só se cresce depois de acontecimentos assim (shit happens). O restante dos erros, imperdoáveis, seriam como facas em meu coração, já foram antes e seriam novamente, mas agora eu sei que aguento e que tudo passa, até o inevitável sofrimento. 
Eu, iria me concentrar na felicidade, nos dias lindos em que eu vivi, nas pessoas que eu provoquei risos e lágrimas de alegria. Os olhos pretos que brilham pra mim, os mais lindos que já vi, iam brilhar de novo. Com isso, eu passaria por tudo, milhares de vezes.


segunda-feira, fevereiro 21, 2011

Encontro

A casa estava vazia
Sozinha, caminhando pelo jardim
Fui ao encontro da paz
Fugi para dentro de mim
Pensamentos agitados
Como as ondas do mar
Não era eu
Não era nada
Inebriada pelo jasmim
Corri para a calçada
Não era eu
Não era nada
Retornei para a casa
A paz estava ali.


Catarina Vasconcelos

quarta-feira, janeiro 05, 2011

Do Desejo (Trecho)

E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me

Hilda Hilst - 1992

segunda-feira, setembro 06, 2010

Ao dia 6.9


Algumas atividades parece que nasceram umas para as outras. Tomar banho e cantar dá uma alegria enorme na gente, comer pizza e falar da vida alheia é quase um ato contínuo, beber cerveja e fumar combina que é uma loucura, assim como jogar futebol e xingar a mãe, sentar no trono e ler, dirigir e ouvir música - todas delícias de uma vida boa!

Por outro lado há coisas que simplesmente não ornam. A palavra ornar, por si já não orna com nada. Chupar cana e assoviar todo mundo sabe que é desaconselhável, dirigir e falar no celular a lei não permite, conversar e pular corda é complicado, e assim a coisa vai numa longa lista de práticas incompatíveis. Pois eu queria manifestar meu desapreço por uma posição de funções adversas que, no entanto, é bastante apreciada na atividade sexual - o 69.

Você há de concordar que a postura é ingrata, a vista não é das melhores, e que se não houver cautela pode-se sair dali com um pinçamento na cervical. Além do mais, porque a pressa, porque tudo ao mesmo tempo? Parece coisa de culpa católica - é dando que se recebe, dê ao próximo o que deseja para si. Pessoalmente, considero aquela atividade frenética em ambas as pontas totalmente desnecessária, e porque não dizer, ineficiente.

Não é possível a criatura executar com primor uma função que requer coordenação, dedicação e técnica, enquanto está tentando relaxar para usufruir o que lhe acomete na outra extremidade. Sim porque uma coisa é uma coisa e a outra coisa é outra coisa! E não venha me dizer que tudo corre naturalmente e que é só meter a cara (perdão, falava no sentido figurado) que sai direito. Não sai! Pra começar, o negócio exige um estudo rigoroso da anatomia do outro. É imperativo que se saiba o que está onde, para se entender o que fazer por ali, e é claro que isso vale para parceiros de todos os sexos, independente da ponta (mesmo que convexa) em que se esteja. Também não se pode achar que a prática da coisa por si já ensine. Há quem pratique a vida inteira e, não tendo se dado ao trabalho de uma observar os detalhes da questão uma única vez, passa a vida fazendo o serviço mal feito. Outro fator que não ajuda é a inelutável proximidade com o assunto, que pode, num excesso de entusiasmo, causar a asfixia fatal do parceiro. Menos grave, mas não menos constrangedor é o caso do sujeito com a vista cansada que, nessa situação, tem que contar exclusivamente com a sensibilidade linguo-labial - não quero descriminar ninguém, mas todos sabemos como há no mundo, inclusive sem problemas de vista, criaturas desprovidas deste requisito. E há ainda o caso dos obesos que por excesso de volume no percurso, simplesmente não conseguem atingir as marcas. Por último, quero lembrar, que a reciprocidade, grande objetivo da postura, é raramente atingida, posto que tem sempre um sujeito ali largadão, enqto a outra está dando tudo de si. E vice-versa. E versa versa. E vice vice, também, eu suponho.

O Kama Sutra propõe nada menos que 529 posições pra se experimentar na hora do amor e eu não estou aqui pra desestimular a criatividade de ninguém. Mas não sei se por preguiça, ou por ter amado homens de muita aptidão, ainda considero o trivial bem feitinho algo de insuperável.

Maitê Proença - Crônicas.

quinta-feira, agosto 26, 2010

Mais um de HILDA HILST

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado.
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.

quarta-feira, agosto 25, 2010

Mais uma vez viver.

Uma vida dentro de outra vida,
como uma semente levada pela ventania,
encharcada pelo orvalho, aquecida pelo sol,
germinando em solo fatigado
pelas pegadas ainda existentes
pelo medo dos caminhos ainda não explorados,
mais com a certeza de revelar um novo amanhecer.
Quente, forte, brilhante, desafiador.
Uma vida que nasce dentro da mesma vida.
É sempre uma nova oportunidade para sorrir,
correr abraçar e sempre desejar. Viver.


André Gusmão
28/06/2007 as 14:50.

Mulher Andando Nua Pela Casa


Mulher andando nua pela casa
Envolve a gente de tamanha paz.
Não é nudez datada, provocante.
É um andar vestida de nudez,
Inocência de irmã e copo d'água.
O corpo nem sequer é percebido
pelo ritmo que o leva.
Transmitam curvas em estado de pureza,
dando este nome à vida: castidade.
Pêlos que fascinavam não perturbam.
Seios, nádegas (tácito armistício)
Repousam de guerra. Também eu repouso.

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, agosto 17, 2010

Vontade de Chorar

Vontade de chorar
Ou quase de sumir
De nunca mais estar por aqui

Querer desabafar

Sem mais reconstruir
Estar no chão e de lá não sair

Eu não quero dizer

Coisas que eu não sei
Ao certo se valem a pena

Eu não quero voltar

Praquilo que eu fugi
Não quero um drama de cinema

Eu só quero dormir

E descansar
Não mais sonhar
Nem me iludir

Eu já cansei

De esperar
Milagres que não
Vão surgir

E eu não sei direito

Se é verdade o que sou ou sinto
Se é que eu minto
Porque minto?
Num minuto já nada existe

E é tão triste

Que nem sinto
A distância
A ausência
Ou o pecado
E o que é errado
Quando não existe mais
O conhecido
“referencial”?

Se eu não sei qual o caminho

Que me leva pro destino
Eu só sigo uma estrada
Que me mantenha distante
De um final não feliz
Eu acho que isso é o que quis
Talvez eu nunca revelei
Mas eu soube
Sem saber
Que um dia alguém ensinei

Com palavras sem certeza

Com olhares de destreza
Como alguém que descobria o momento
Uma revelação

Como algo anunciado

Proclamado e exaltado
Em todos os cantos
Dizia e pregava
Aquilo que nunca acreditei

Que nunca tentei


Que nunca provei


Que nunca gostei


Que nunca perguntei


Que nunca vivi


De Lua Minguante, Publicado no Recando das Letras em 15/01/2007

sexta-feira, julho 23, 2010

A Vida


A vida.
Contada e cantada.
Uma crônica.
Um drama.
Um poema.
Uma piada.
Uma valsa.
Um samba.
Uma verdadeira ciranda.
Quando a música sugere dançar colados um no outro...
Ah, é uma pessoa amiga ao seu lado!
A vida.

Catarina Vasconcelos*



*uma das pessoas que eu mais amo na vida.

quarta-feira, julho 21, 2010

Os Três Mal-amados (trecho)

De João Cabral de Melo Neto


- Joaquim:

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

sábado, dezembro 12, 2009

Você meu mundo, eu relógio de não marcar horas...



Você meu mundo meu relógio de não marcar horas; de esquecê-las. Você meu andar meu ar meu comer meu descomer. Minha paz de espadas acesas. Meu sono festival meu acordar entre girândolas. Meu banho quente morno frio quente pelando. Minha pele total. Minhas unhas afiadas aceradas aciduladas. Meu sabor de veneno. Minhas cartas marcadas que se desmarcam e voam. Meu suplício. Minha mansa onça pintada pulando. Minha saliva minha língua passeadeira possessiva meu esfregar de barriga em barriga. Meu perder-me entre pêlos algas águas ardências. Meu pênis submerso. Túnel cova cova cova cada vez mais funda estreita mais mais. Meu gemidos gritos uivos guais guinchos miados ofegos ah oh ai ui nhem ahah minha evaporação meu suicídio gozoso glorioso.

(Carlos Drummond de Andreade - O Amor Natural)


Aí... eu achei essa versão musical.

segunda-feira, agosto 03, 2009

Leitura Recomendada

Esta leitura se refere ao trecho que mais gosto do livro O Senhor do Anéis.

Frodo está se recuperando do ferimento com a espada em Valfenda. Acaba de acordar e presencia elfos cantando no salão.



Eu espero que vocês compreendam porque eu gosto tanto de Tolkien...

sexta-feira, julho 10, 2009

Quando o amor vacila

Na voz de Maria Bethânia e com dança da Cia Artluz de Dança numa das coreografias de seu repertório.
Bailarinas: Márcia Soares e Natalia dos Santos. Coreógrafos: Alessandra Gripp e Fabiano Coelho. Macaé-RJ.





Eu sei que atrás deste universo de aparências,
das diferenças todas,
a esperança é preservada.

Nas xícaras sujas de ontem
o café de cada manhã é servido.
Mas existe uma palavra que não suporto ouvir,
e dela não me conformo.

Eu acredito em tudo,
mas eu quero você agora.

Eu te amo pelas tuas faltas,
pelo teu corpo marcado,
pelas tuas cicatrizes,
pelas tuas loucuras todas, minha vida.

Eu amo as tuas mãos,
mesmo que por causa delas
eu não saiba o que fazer das minhas.

Amo teu jogo triste.

As tuas roupas sujas
é aqui em casa que eu lavo.

Eu amo a tua alegria.

Mesmo fora de si,
eu te amo pela tua essência.
Até pelo que você poderia ter sido,
se a maré das circunstâncias
não tivesse te banhado
nas águas do equívoco.

Eu te amo nas horas infernais
e na vida sem tempo, quando,
sozinha, bordo mais uma toalha
de fim de semana.

Eu te amo pelas crianças e futuras rugas.

Eu te amo pelas tuas ilusões perdidas
e pelos teus sonhos inúteis.

Amo teu sistema de vida e morte.

Eu te amo pelo que se repete
e que nunca é igual.

Eu te amo pelas tuas entradas,
saídas e bandeiras.

Eu te amo desde os teus pés
até o que te escapa.

Eu te amo de alma para alma.
E mais que as palavras,
ainda que seja através delas
que eu me defenda,
quando digo que te amo
mais que o silêncio dos momentos difíceis,
quando o próprio amor
vacila.

quarta-feira, julho 08, 2009

Eu quero ser possuída por você


Composição: José Vicente

Eu quero ser possuída por você
Pelo seu corpo, pela sua proteção, pelo seu sangue
Me ama!
Eu quero que você me ame e fique eternamente me amando dentro de mim
Com sua carne e o seu amor
Eternamente, infinitamente dentro de mim
Me evolvendo, me decifrando, me consumindo, me revelando
Como uma tarde dentro do elevador no verão voltando da praia
E você me abraçou e eu te abracei
E quanto mais eu me entregava mais nascia o meu desejo
Mais sobrava só o desejo e mais eu te queria sem palavras, sem pensamentos
A vida inteira resumida só no desejo da tua boca dizendo o meu nome
Da tua mão conduzindo a minha mão
Do teu corpo revelando o meu corpo
Como se o mundo fosse pela primeira vez
Você meu ponto de referência nesta cidade.

domingo, julho 05, 2009

Fanatismo

Para minha Dandan, que me mostrou esta maravilha de poesia depois musicada por Fagner.

Composição: Florbela Espanca

Minh' alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver
Não és sequer a razão do meu viver
pois que tu és já toda minha vida
Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história, tantas vezes lida!
“Tudo no mundo é frágil, tudo passa...”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina, fala em mim!
E, olhos postos em ti, digo de rastros:
“Ah! podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como um deus: princípio e fim!...

Eu já te falei de tudo, mas tudo isso é pouco,
diante do que sinto.

quinta-feira, junho 11, 2009



Poderia ao menos tocar
as ataduras da tua boca?
Panos de linho luminescentes
com que magoas
os que te pedem palavras?

Poderia através
sentir teus dentes?
Tocar-lhes o marfim
e o liso da saliva

O molhado que mata e ressuscita?

Me permitirias te sentir a língua essa peça que alisa nossas nucas e fere rubra nossas delicadas espessuras?

Poderia, ao menos tocar
uma fibra desses linhos
com repetidos cuidados
abrir
apenas um espaço, um grão de milho
para te aspirar?

Poderia, meu deus, me aproximar?
Tu, na montanha.
Eu no meu sonho de estar
no resíduo dos teus sonhos.

Leram e gostaram

Né que tem gente que lê...