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quarta-feira, julho 21, 2010

Os Três Mal-amados (trecho)

De João Cabral de Melo Neto


- Joaquim:

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

sábado, outubro 10, 2009

Carícias...

Trechos da Peça...

Numa metrópole, personagens vivem momentos de conflito e união em onze cenas. “Carícias” é baseado em texto do dramaturgo catalão Sergi Belbel com tradução da carioca Christiane Jathay e direção do cineasta pernambucano Leo Falcão. A assistência de direção e preparação de elenco ficam por conta de Karina Falcão.

No elenco, estão Ana Claudia Wanguestel, Carlos Lira, Cira Ramos, Marcelino Dias, Paula de Renor e Rodrigo García.

A peça usa metalinguagem e tem sempre dois personagens em cena, numa estrutura circular, onde um personagem do primeiro quadro dialoga com o personagem do quadro seguinte. As palavras e os gestos mostram o vazio da comunicação, a frustração decorrente da fragmentação das relações afetivas (familiares ou não), momentos de esperança e tímidas manifestações de amor.

domingo, agosto 16, 2009

O Parque 13 de Maio

Ontem foi um dia que parecia que não ia acontecer nada de interessante. Durante a manhã eu tinha uma aula pra conhecer um professor de uma disciplina de ensino a distância (eu sei que não tem sentido) liguei pra uns amigos pra ver se rolava algo mais no sábado, que por sinal estava um diz belíssimo, ninguém me retornou. Enfim, quanto terminou a bendita aula fui almoçar com uma amiga e depois fomos para o Parque 13 de maio, que fica no centro da cidade, no bairro da Boa Vista, no Recife.

Chegando lá, procuramos um lugar na sombra, perto dos brinquedos e das crianças, ficamos conversando sobre como era nossa infância e os parques antigamente (a uns 2o anos atrás) Bem, especificamente este parque parecia com estas fotos... quase ninguém e muito espaço pra correr. Um sonho para qualquer menino de prédio, que não tem espaço, coitado. Ontem ele estava abarrotado de pimpolhos correndo e fazendo barulho. Mesmo assim ficamos prestando atenção a um pirralhinha de uns 5 anos com uma camisa vermelha. Ele tinha um cachorro vira-lata maravilhoso. O cão, amarelo e com um cotôco de rabo, tomava conta da criança muito mais que a mãe, que por sinal eu não me lembro de tê-la visto no parque. O bendito cachorro queria subir no escorrego com o menino, como não podia, ficava esperando do outro lado logo depois que o perdia de vista na escadaria do tobogã. E a festa que ele fazia quando o moleque aparecia? nossa. Coisa mais linda o vira-lata.

Dentre outras crianças que vimos no parque, 2 brincavam perto de nós com uma bola colorida, como esta da foto. O barulho que esta bola faz é diferente das outras, é quase efeito sonoro de desenho animado. E, é claro, a bola bateu na gente. Mudamos de lugar, para longe da bola e pra deixar as crianças brincarem, a mãe deles ficava reclamando o tempo todo pra que tivessem cuidado com os outros, mas fazer o que? criança é assim... e eu sempre acho que eu atraio bolas assassinas.

Enfim, neste mesmo parque vimos os rapazes da academia dos bombeiros correndo e dizendo frases de efeito... treinando. Eu não entendia direito no início, pensei que fosse um treino sério, com músicas do tipo tropa de elite... hum, quando eles se aproximaram o capitão puxava "eu quero beijar" e o esquadrão "a sua boca lôca". O Axé deu lugar para as palavras de ordem, fiquei chocada.

Depois disso resolvemos ir ver os bichos, o parque tem um mini zoológico. Macaco vem, macaco vai, vimos um que gostava de se exibir e armava estratégias pra pegar uma pipoca que estava do lado de fora da jaula, usando uma casca de sementes. Outro comia e com as mãos sujas tentava pintar a árvore, é sério, ele quase fazia pintura rupestre. Tinha uma família de macaquinhos com um bebê que atrapalhava tudo que os outros queriam fazer, crianças sempre serão crianças.

Depois de rir muitíssimo, lembrando de quando éramos crianças e comparando com agora, fomos pra casa. Uma tarde simples e extremamente divertida. Mas eu não sei se, quando eu tiver filhos, eu vou ter tempo de leva-los ao parque.

segunda-feira, julho 27, 2009

O Passo da Ema



Composição: Antúlio Madureira

Olha o passo da ema
Lá e lô
Lá no meu sertão
Lá e lô

Todo "passo" avôa
Lá e lô
Só a ema não
Lá e lô

Tiu, tiu, tiu,
Tiu, tiu, tiu, tiu
Coma milho "passo",
Coma milho,
Coma milho "passo",
Coma milho


Hoje eu acordei com esta música na cabeça, prontamente vim postar a música e contar umas histórias carnavalescas entre nós. Para o meu espanto, não tem vídeo no youtube dela, só uma galera tosca que não sabe dançar e um grupo de dança português... bem, não querendo desmerecer o grupo, mas já reclamando... eles não tem a malemolência do nosso povo.

Então esse post acabou se tornando uma homenagem a EMA, que fez e faz os nossos carnavais no Bairro do Recife tão felizes. Outra brincadeira maravihosa é a Cobra gigante, música de Antúlio Madureira que também não tem vídeo. "Essa menina segure a minha cobra que eu vou alí e volto já..." Vai dizer que você não cantou isso? e nunca quis entrar na cobra? uhhumm sei...

Se alguem achar vídeos, por favor me avise.


Sobre as histórias e a dança popular, depois eu penso se eu faço um outro vídeo. kkkkkkkkkkkkk.


Nada como o carnaval do Recife!

sábado, julho 11, 2009

Fim de Festa (Vinícius Gregório)



Fim de Festa (Vinícius Gregório)

Gravado no evento "Eu Valorizo o meu Oxente" da turma de secretariado 2009.1 da UFPE.

segunda-feira, junho 22, 2009

BOLO SOUZA LEÃO

BOLO SOUZA LEÃO

Bolo Souza Leão

Virgínia Barbosa

Bibliotecária da

Fundação Joaquim Nabuco



O doce tem lugar de destaque na culinária nordestina e traz referências do passado e do presente, frutos de heranças culturais diversas – portuguesa, hispânica, africana, ameríndia. A história nos mostra que, desde a colonização do Brasil, a presença dos doces é marcante. Nos engenhos, as prendadas senhoras da casa-grande trouxeram de Portugal uma vasta experiência na elaboração dos doces, muitos originários das cozinhas dos conventos, que passaram a compor a doçaria tradicional portuguesa. Na terra colonizada, foram feitas adaptações ou acréscimos em suas receitas, com os ingredientes locais disponíveis, sem comprometer o sabor.



Gilberto Freyre, no seu livro Açúcar, afirma: “a marmelada, o caju e a goiabada tornaram-se desde os tempos coloniais, os grandes doces das casa-grandes. A banana assada ou frita com canela, uma das sobremesas mais estimadas das casas patriarcais, ao lado do mel de engenho com farinha de mandioca, com cará, com macaxeira; ao lado do sabongo [doce de coco com o mel de engenho] e do doce de coco verde e, mais tarde, do doce com queijo – combinação tão saborosamente brasileira” (FREYRE, 1987, p. 57).



Ao lado dos doces, o Nordeste brasiliero é área por excelência dos bolos, principalmente dos bolos autorais, de receita especial de família. A exemplo deste, encontramos o Souza Leão que ganhou valor de patrimônio regional e mesmo nacional.



Segundo pesquisadores, o Bolo Souza Leão entrou na história da culinária pernambucana por intermédio de Dona Rita de Cássia Souza Leão Bezerra Cavalcanti, esposa do coronel Agostinho Bezerra da Silva Cavalcanti, proprietário do engenho São Bartolomeu, povoado de Muribeca, município de Jaboatão dos Guararapes. De Dona Rita, renomada quituteira da época, tem-se conhecimento de que muitas de suas receitas ficaram famosas, como a do Bolo São Bartolomeu e o Bolo Souza Leão. Alguns ingredientes do Souza Leão, originalmente europeus, foram substituídos: o trigo pela massa de mandioca e a manteiga francesa, por manteiga feita na cozinha do engenho. O sucesso ficou garantido até a atualidade e é considerado o mais aristocrático bolo nordestino. Inclusive, na tradição de servir o bolo, existe a obrigação de utilizar pratos de porcelana ou de cristal. Provavelmente, esta exigência deva-se a importância dos Souza Leão, que o batizaram. Conta-se, também, que ele foi servido ao imperador Dom Pedro II e sua esposa, Tereza Cristina, quando de passagem por Pernambuco, no ano de 1859.



Atualmente, é tarefa difícil identificar a receita original, que se atribuiu a Dona Rita de Cássia. Freyre (1987, p. 77), confirma: “Consegui várias receitas desse manjar, mas todas se contradizem, a ponto de me fazerem duvidar da existência de um bolo Sousa Leão orotodoxo [verdadeiro]. Consegui-as quase como quem violasse segredos maçônicos”. Os descendentes da família Souza Leão são provenientes de onze engenhos de Pernambuco. Com o passar dos anos, a receita original foi sofrendo pequenas variações nos ingredientes, e cada ramificação da família afirma ser sua a receita verdadeira. Deixando à parte essa disputa, a verdade é que qualquer que seja a versão apresentada, o bolo é sempre bom, cremoso, lembrando um pudim, e quem o degusta, nunca o esquece.



A seguir, uma das receitas do tradicional bolo Souza Leão:

Bolo Souza Leão

Ingredientes:

- 18 gemas;

- 6 xícaras de leite de coco puro;

- 1 kg de açúcar;

- 1 kg de massa de mandioca;

- 2 colheres de sopa de manteiga;

- Sal a gosto.

Preparo:

- Com açúcar, faça uma calda em ponto de fio;

- Junte a manteiga e depois as gemas;

- Acrescente a massa lavada, espremida e peneirada. E, por fim, leite de coco e sal a gosto;

- Passe toda a mistura em peneira muito fina, várias vezes;

- Coloque em fôrma untada com manteiga e forrada com papel impermeável, também untado. Asse em forno regular.



No dia 22 de maio de 2008, foi sancionada pelo governador Eduardo Campos, a Lei nº 357/2007, de autoria do deputado Pedro Eurico, que deu ao bolo Souza Leão o título de Patrimônio Cultural e Imaterial do Estado de Pernambuco.

quarta-feira, junho 17, 2009

Eu sou do Brasil, mas não qualquer brasileira. Eu sou do nordeste, mas não qualquer nordestina, EU SOU PERNAMBUCANA!


Essa é pra tu, que discrimina o Nordeste
Que desvaloriza os valores da Zona da Mata Agreste.
Essa é pra tu que acha meu sotaque engraçado
E desconhece o forró, xote, baião e xaxado.
Essa é pra tu sem personalidade
pois eu vou te mostrar nesse verso originalidade
Culinária de verdade que deixa saudade na região interiorana dessa cidade
A fé que invade vem e invade os romeiros
O cheiro da cana queimada do canavial de limoeiro.
Cavalo do vaqueiro chamado atitude
o aboio em declamação na beira do açude
não seja rude pois mude essa sua visão
também nunca provou charque na brasa e alcatrão.
Até o velho João teve o privilégio de ter a sabedoria do mato sem passar no colégio.
Nunca sentisse o beijo da pernambucana
é parecido com caju, cajá e cajarana.
Te dana, com esse teu preconceito.
Minha vida é desse jeito eu tô eleito.
Eu valorizo sim senhor a minha terra
Prefiro a paz e não a guerra.
Eu valorizo sim os costumes da minha gente,
Meu chapéu de couro e meu OXENTE!!!
Eu valorizo! O quê?
A cultura nordestina.
A tradição do povo na fina festa junina, a banda de pífano animando a novena.
Um violeiro no pé de parede dibuiando tema
chapéu de palha ao mato pegado no berço,
terra mais linda que essa eu não conheço
da cidade ao sertão do agreste ao litoral, beleza tropical de um cenário cultural,
eu represento a cultura arte da minha gente.
O Nordeste independente da ousadia
a mistura da sensatez com a loucura do ritmo com a poesia.
Do rap com a cantoria da batida com a viola,
é um pife tocado por João
um cordel pelo o poeta Abdias
Vila Nova em suas cantorias
a coragem vista em Lampião
a sanfona na mão de Gonzagão que até hoje dá gosto em escutar.
É a força do povo pra lutar.
Porque aqui é o Nordeste independente.
Eu valorizo sim senhor a minha terra
Prefiro a paz e não a guerra.
Eu valorizo sim os costumes da minha gente,
Meu chapéu de couro e meu OXENTE!!!
Eu nasci, vivi, sobrevivi no clima tropical.
Aproveitei o sol do interior e do litoral.
Nesse momento estou na terra do frevo carnaval,
ouvindo Chico Science, Nação Zumbi Manguezal,
meu mundo é real sem fantasia sem ficção, minha literatura é de cordel, né não?
Meu rei é de baião meu café é pisado no pilão.
A esteira de palha de coqueiro é meu colchão
sigo a tradição de um antepassado meu
que comprou um vinil de Jackson do Pandeiro e me deu
que influenciou eu na minha demanda
valorizo o Maracatu Rural e a Ciranda
meu pensamento anda revolução Palmares, Zumbi Nordeste, Nação.
Minha alimentação é adubada quiabada, maxixada, buchada, rabada e feijoada.
Pra sobremesa cocada ou goiabada
Nordeste é o lugar rapaziada,
não desmerecendo o lugar de ninguém,
mas defendo meu território e o que convém.
Eu sei que existe o preconceituoso que insiste em ser nacionalista rigoroso.
Eu valorizo sim senhor a minha terra
Prefiro a paz e não a guerra.
Eu valorizo sim os costumes da minha gente,
Meu chapéu de couro e meu OXENTE!!!


Leram e gostaram

Né que tem gente que lê...